Hora em Paris

Eros e Psiquê

 

Eros e Psiquê

Este é o tema retratado pelo escultor italiano Antônio Canova (1757 – 1822), exposta no Museu do Louvre, em Paris que segundo a lenda do autor romano Apuleio, em suas Metamorfoses, O Asno de Ouro”, nos diz que os Deuses realizaram um conselho concedendo a mão de Psiquê ao deus do Amor, dando a ela a imortalidade e o status de deusa da Alma.

 

Antonio CANOVA (1757 – 1822). “Psyché ranimée par le baiser de l’Amour”. Museu do Louvre, Paris.

 

Quem são os personagens ?

 

O jovem homem alado visto encima de uma rocha abraçando uma garota inconsciente, é o deus do Amor, (Eros ou Cupido em latim) reconhecível por suas asas e seu estojo cheio de flechas. A garota é Psiquê, filha de um rei de Mileto, muito invejada por Vênus por sua beleza que a enviou para uma missão no submundo da terra buscar um frasco que continua a beleza das deusas guardado por Perséfone, e com a proibição de abri-lo. Curiosa e não respeitando as ordens abriu e caiu num sono profundo. O Amor, vendo Psiquê sem praticamente sem vida, procura salvá-la com ajuda de Zeus que aceita seu pedido. Ordena que Hades traga-a de volta e a deixe no alto de uma montanha no Olimpo. Cuidadosamente o Amor abraça a jovem Psiquê dando-lhe uma beijo para traze-la de volta a vida.

 

A história de Psiquê

 

Era uma vez um rei e uma rainha que tinham três filhas lindas. A mais nova, e também a mais bela, Psiquê, era venerada como se fosse uma deusa pelos pais, e por várias pessoas ao seu redor. Sua beleza se espalhou trazendo admiradores do mundo inteiro para admira-la. Vênus, a deusa do amor, da beleza e sexualidade, enciumada, ofendida e com muita raiva em ver os homens abandonaram os seus templos, pararam de cultuá-la e homenageá-la trocando-a por esta mortal procurou seu filho, deus do Amor para vingá-la. O plano era fazer Psiquê se apaixonar pelo o homem mais feio e terrível dos seres humanos. Mais Eros preparando sua flecha do amor para atingi-la se fere acidentalmente e ao vê-la, apaixonou-se perdidamente pela princesa.

 

O tempo foi passando, suas duas irmãs se casaram e o pai triste e preocupado em ver sua filha ainda solteira apesar de sua beleza, consultou o oráculo de Apolo, induzido por Amor, profetizou terríveis calamidades na terra se Psiquê não fosse imediatamente abandonada no topo de uma montanha solitária, para se casar com uma monstruosa entidade.

 

O pai cumprindo então a profecia leva a jovem aterrorizada até o alto do monte e deixa-a. Psiquê conformada com seu destino, sozinha e trêmula ficou aguardando o pior. Tomada por um profundo sono, de repente sentiu a carícia de uma brisa suave e agradável, anunciando a chegada de Zéfiro, conhecido na mitologia como o Vento do Oeste que a conduziu por ordem do deus Amor, por um maravilhoso Vale até deixa-la num incrível palácio de mármore, todo coberto de pedras preciosas e flores.

 

Ao acordar, criados invisíveis começaram a tratarem como uma verdadeira rainha obedecendo a todos os seus desejos e vontades. Ao chegar a noite foi levada por vozes para a um quarto já imaginando que seria o momento do terrível monstro aparecer para possui-la.

No entanto, uma voz carinhosa e agradável veio confortá-la e acalmá-la. Ao sentir as mãos carinhosas do misterioso desconhecido “monstro” amante, seu coração começou a bater mais forte ao ponto se se entregar as delícias do amor.

 

Todas as noites, o visitante invisível invadia seu quarto para possui-la e ela não se entediava, nem desaprovava, ao contrário adorava.

Enquanto isso, suas duas irmãs a procuravam por todos os lugares, mas seu misterioso esposo a proibiu que se encontrassem pois, se elas vissem a beleza do castelo, a riqueza e a felicidade em que viviam poderiam serem tomadas pela inveja, comentários maliciosos e a curiosidade de saber quem ele era. Psiquê sentindo muitas saudades e agora grávida de um bebê conseguiu convencer o amante em deixa-las a entrar no castelo, mas teve que aceitar suas condições: nunca conhecer sua verdadeira identidade, caso contrário o bebê perderia sua imortalidade e ambos seriam abandonados para sempre.

 

E o que Amor temia, aconteceu, Psiquê, influenciada pelas muitas questões de suas irmãs, a convenceram que tinha que saber quem ele era pois, como escondia o rosto era porque algo de errado tinha com ele, talvez fosse realmente um horrível monstro e não um homem divino como ela imaginava. Um dia na escuridão da noite aproveitando-se que ele dormia profundamente, pegou uma faca em uma das mãos, para se proteger ou matar o possível monstro, e na outra, uma lamparina a óleo para iluminar bem o rosto do misterioso personagem. Assim que se aproximou, logo viu que se tratava do homem mais bonito da terra, o verdadeiro deus do Amor, o deus Alado. Emocionada, assustada e admirada pelo jovem rapaz deixou cair desastradamente uma gota do óleo fervendo nos ombros do seu deus. Amor, acordado pela dor, decepcionado pela traição, foge enlouquecido gritando repetidamente: “O amor não pode sobreviver com a suspeita!”

 

Psiquê ainda tentou correr atrás saltando pela janela que ele saiu, mas caiu ficando desmaiada por um bom tempo. Quando acordou ainda atordoada se encontrou na casa dos seus pais. O castelo e tudo que ela conheceu junto ao Amor desapareceu para sempre.

 

As duas irmãs fingindo pesar e tristeza para com Psiquê, procuram logo Zéfiro, para que as levassem junto ao Amor, e seu fabuloso castelo. Mas Zéfiro desta vez propositalmente as deixou cair num profundo abismo, onde acabaram morrendo.

 

Psiquê, triste, desanimada e até pensando no suicídio perto de um riacho foi alertada por (deus dos campos, bosques e rebanhos), que não desistisse do deus Amor, pois segundo ele, ainda tinha muitas chances de recuperá-lo. Motivada pela notícia saiu então da casa dos pais, em busca deste amor perdido. Caminhando dia e noite por todos os lugares da terra chegando no alto de uma montanha encontrou um lugar muito parecido com o templo do Amor. Ao entrar no templo encontrou tudo muito bagunçado, trigo, centeio, foices, ancinhos, espalhados pelo chão. Pensando em agradar ao deus daquele templo, separou e organizou tudo. O templo era da deusa Deméter (deusa da terra cultivada, das colheitas e das estações do ano), que ficou agradecida pelo trabalho zeloso de Psiquê. Então retribuindo ajuda que recebeu aconselhou que Psiquê procurasse e rendesse homenagem a Vênus, (Afrodite), única maneira para encontrar Amor.

 

Ao chegar no templo, Vênus ainda com muita raiva de Psiquê por ter ferido seu filho com o óleo quente, propôs algumas condições para conceder seu perdão. Quatro tarefas bem difíceis de serem realizadas para provar que realmente era fiel e amava de verdade Amor. Todas as tarefas planejadas poderiam levá-la a morte caso fracasse. Psiquê, assim mesmo sabendo dos riscos aceitou todos os desafios.

 

O 1° desafio, Psiquê em uma noite teria que separar por especes os vários tipos de grãos misturados; feijão, trigo, cevada, lentilhas e aveia. Logo nas primeiras horas se cansou, parou um momento para se recuperar do tanto de trabalho, mas acabou adormecendo. Uma formiga comovida pela esforço e o pouco resultado obtido até então, convoca todo um batalhão de amigas formigas para ajudá-la. E rapidamente durante toda a noite separam os grãos por categoria. Ao acordar a missão estava cumprida no prazo.

 

A 2° tarefa era ir até as margens de um rio para colher um pouco de lã de ouro de cada carneiro feroz que ali pastavam do outro lado do rio. Carneiros ferozes e perigosos que poderiam até matá-la caso se aproximasse muito deles. Pensando na melhor maneira para chegar neles, uma voz surge do meio dos juncos de árvores que ali estavam avisando para que ela atravesse o rio somente quando todos os carneiros estivessem dormindo cansados pelo forte sol do meio-dia. Aguardou então pelo momento certo, e saiu recolhendo toda lã de ouro que pode pegar.

 

A 3° tarefa era bem mais complicada, tinha que trazer da nascente do rio Estige uma jarra cheia de água escura. O problema era que este rio nascia no topo de uma montanha muito íngreme, e impossível de ser escalada, além de ser guardada por um terrível dragão. Na primeira tentativa levou uma grande queda. A águia de Zeus, que ali passava vendo a dificuldade e o possível fracasso, agarrou a jarra que ela segurava subiu até o topo, enchendo-a com água escuro e a trouxe de volta para Psiquê. Mais uma missão completada.

 

Na 4° tarefa, Vênus, aborrecida e zangada com o sucesso das três anteriores tarefas, dificultou ainda mais esta última. Pediu para que Psiquê encontrasse Perséfone, (deusa da agricultura, estações do ano, casamento e feminilidade), esposa de Hades, (deus dos Mortos, do submundo, e do Tártaro), e lhe pedisse o frasco que continha a beleza dos desuses imortais, para que assim ela, Vênus pudesse recuperar a sua própria, pois havia se desgastada pelo grande esforço que estava fazendo para cuidar da ferida do Amor, e aproveitando reforçar também sua beleza divina para com todos as outras deusas e deuses, como sendo a única deusa do amor, fertilidade e da sexualidade, sem concorrentes. Assim sendo Psiquê subiu no alto de uma torre e quando se preparava para se jogar para tentar encontrar uma passagem para o submundo de Hades, a Torre vendo que não ia dar certo e que se pulasse era morte na certa sussurrou a maneira correta para se entrar. Primeiramente indicou uma passagem secreta por uma caverna que a levaria direto para o reino de Hades, depois ensinou como passar por vários perigos que encontraria pelo caminho, a moeda necessária para pagar o remador Caronte para travessia do rio Aqueronte (afluente do rio Estige), e como driblar o cão Cérbero. A última instrução era para quando estivesse com o Perséfone e o frasco em mãos, não o abrisse de forma alguma, pois a beleza destinada aos deuses, não eram para serem vistas por uma mortal. De posse do frasco, e no meio caminho de volta, Psiquê pensando recuperar também um pouco da sua beleza perdida por tantas dias de sofrimento e apreensões, abriu o frasco. Ao respirar o perfume divino foi severamente punida e em vez da beleza entrou num coma profundo. Missão fracassada.

 

O Amor, curado de sua ferida, vendo sua amada agonizando neste sono eterno, ainda apaixonado e arrependido por tê-la abandonada consegue de Zeus, o deus do Olimpo acalmasse a ira de Vênus e aprovação junto a um conselho de imortais, o casamento dos dois, Eros (Amor) e Psiquê. Resgatada por Hades do submundo e deixada desacordada no alto de uma montanha do Olimpo, Amor após verificar com a ponta da sua flecha que ainda estava viva, abraça-a delicadamente e com um leve beijo, a traz de volta para a vida. O frasco com o resto do perfume que sobrou de Perséfone, em cumprimento da missão foi entregue a Vênus. Livres agora de todas as perseguições e unidos pelo amor, Eros e Psiquê finalmente se casam para viverem juntos na imortalidade. Ele, deus do Amor, e ela, Psiquê, deusa da Alma, e da Psicologia. Tiverem uma filha, Hedonê (Volúpia), a deusa dos Prazeres.

 

 

Analise da Escultura

 

Antonio Canova se inspirou para realização da sua obra após ter feito uma visita a cidade de Herculano, em 1783, na Itália, onde foi descoberta uma pintura romana de um homem alado na posição agachada segurando uma mulher deitada sobre uma rocha que ao mesmo tempo o abraçava. Soterrada por muito tempo e conservada pelo pó vulcânico do Étnica. O escultor copiou exatamente este tema, trabalhando em muitos esculturas em argila de barro, gesso, desenhos e esboços, até encontrar a melhor maneira para representar o enlaço deste casal de apaixonados. A busca do abraço ideal foi constante por Canova realizando inúmeros estudos.

 

No grande modelo de gesso de “Vênus coroando Adonis”, o jogo de braços e olhares já anuncia o novo trabalho de “Eros e Psiquê”.

 

Antonio CANOVA (1757 – 1822). “Vénus couronnant Adonis”. Modelo em gesso. Museu Gipsoteca Canoviana / Possagno / Treviso, Itália.

 

 

Antonio CANOVA (1757 – 1822). “Lutte pour psyché ranimée par le baiser”. Modelo em barro. Museu Gipsoteca Canoviana / Possagno / Treviso, Itália.

No estudo do modelo em terra encontramos o casal com os corpos já entrelaçados sobre uma rocha.

 

Antonio CANOVA (1757 – 1822). “Lutte pour Psyché ranimée par le baiser de l’Amour”. Modelo em barro. Museu Correr / Fondazione Musei Civici Venezia

 

No trabalho final em mármore, a perna de Amor encontra-se mais dobrada, as asas bem abertas, e o tronco de Psiquê levantado, dando lugar à nova composição.

 

Eros e Psiquê Eros e Psiquê

 

As pernas de Psiquê e de Eros define um volume piramidal, que os deixam firmemente sobre a composição da rocha. Canova consegue conjugar uma real estabilidade com uma rotação complexa e dinâmica para obra. Girando a composição: a partir do pé direito de Eros, o movimento segue o enlace dos braços levantando automaticamente Psiquê para o alto, reforçando assim o seu retorno à vida.

 

A verticalidade das asas aumenta o movimento ascendente. O emocional e sensual é acentuado pela diferença entre os rostos dos amantes. O tempo parece suspenso diante do fogo: o abraço final.

 

Eros e Psiquê

Graças a um trabalho muito variado e sutil sobre a superfície de mármore Canova buscava dar vida para suas esculturas. Podemos notar na superfície da rocha as marcas deixadas deliberadamente pelas talhadas do cinzel, as diferenças de traços do tapete drapeado colocado no chão e o lençol de musselina que circunda os quadris de Psiquê.

 

Eros e Psiquê

A suavidade da carne é obtida por meio de lixas cada vez mais finas: no rosto do Amor podemos distinguir muito bem os traços. O artista criou ferramentas especiais para alcançar áreas curvas mais inacessíveis das suas esculturas.

 

Eros e Psiquê

O vaso foi um elemento tratado em separado através de um polimento especial para dar brilho, provavelmente lustrada em cera para dar-lhe a aparência de um metal precioso.

 

Eros e Psiquê

 

As asas também foram esculpidas em particular e foram colocadas com grande precisão em suas costas. Os traços leves das penas tem como função dissimular esse encaixe. As asas são de uma espessura considerável mas conforme a luz do sol, principalmente contra luz, eles são ficam translúcidas, e de um impressionante dourado.

 

Eros e Psiquê

Este trabalho de Canova mostra em detalhes seu brilhante virtuosismo no mármore.

 

Aperar de alguns críticos acharam a obra ser muito “barroca” ou muito “maneirista” ou muito complexa, para o público e vários artistas da época o trabalho foi um sucesso imediato. Criado para ser visto a partir de vários ângulos de modo que podemos rodar através da sua base para apreciarmos todos os detalhes e subtilezas da obra e da lenda de “Eros e Psiquê”. Um trabalho copiado e imitado por muitos. 

 

Antonio CanovaAntonio CANOVA (1757 – 1822). Pintura a óleo, auto-retrato , 1792Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.

 

Antonio Canova foi o expoente máximo da escultura neoclássica européia, pois quis devolver à escultura, a simplicidade e a pureza características da antiguidade.

 

Nasceu em Possagno, república de Veneza, em 1º de novembro de 1757. Órfão desde a infância, foi trabalhar como aprendiz no ateliê de Giuseppe Bernardi, também chamado Torretti, que lhe proporcionou uma formação eminentemente barroca. Em 1779 mudou-se para Roma e estudou as grandes obras clássicas, que exerceram sobre ele profunda impressão. O grupo “Dédalo e Ícaro”, realizado em seu próprio ateliê veneziano, foi a primeira obra a assinalar o abandono do estilo barroco.

 

Após dois anos de viagens, quando visitou Nápoles e as ruínas de Herculano e Pompéia, Canova regressou a Roma em 1781 e realizou a obra que lhe deu grande prestígio, “Teseu e o Minotauro”, cuja perfeição anatômica foi possível graças a sua prática diária de desenho.

 

Recebeu depois a incumbência de realizar dois monumentos funerários, dos Papas Clemente XIII e Clemente XIV, ambos em Roma. Dessa época romana é também a escultura “Eros e Psiquê”, da qual realizou duas versões, uma conservada em Paris e outra em São Petersburgo. Nela o artista demonstrou total domínio da estética clássica, sobretudo na textura que deu à pele das figuras e na espontaneidade do panejamento. Quando Roma foi invadida pelos franceses, Canova transferiu-se para Viena, mas em 1802 aceitou o convite de Napoleão para pintar, em Paris, retratos do imperador e de sua família, idealizados à maneira das esculturas romanas.

 

Essa característica se pode observar em “Paulina Borghese como Vênus vencedora”, e nas duas estátuas de Napoleão, uma em bronze e outra em mármore, nu e de corpo inteiro, completadas em 1811.

 

A convite do Papa, depois da queda definitiva de Napoleão, Canova regressou a Paris, onde conseguiu a devolução das obras de arte italianas confiscadas durante a invasão napoleônica, fato que lhe valeu o título de marquês de Ischia.

 

Antonio Canova faleceu em Veneza em 13 de outubro de 1822. Embora sua obra, como a de todos os neoclássicos, tenha sido acusada de fria, mais tarde a crítica do século XX reconheceria nele um escultor acadêmico de suma maestria e elegância 

 

Fontes: Wikipedia, Enciclopédia Britânica do Brasil, Museu do Louvre.

 

 

 

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